quarta-feira, 31 de março de 2010

Incredulidade

Perguntas como "Quem é o actual líder do CDS-PP?" e "Com quem está casada Carla Bruni?", como ouvi formular na televisão há dias, requerem resposta rápida, curta e símplima. Assim o julgam todos os que se encontram minimamente actualizados neste tempo de abundância informativa. Porém, para a jovem inquirida em questão, as respostas revelaram-se insondáveis, de uma dificuldade equiparável a uma daquelas complexas equações matemáticas aparentemente irresolúveis.

"CDS-PP", "Portas", "Bruni" e "Sarkozy" são realidades - pasme-se! - que, pelos vistos, jamais se tinham cruzado na vida desta jovem ignara. Sinais confrangedores da ignorância e da alienação em que alguns cidadãos, nomeadamente alguma juventude, parecem ter mergulhado.

Com frequência se lança a crítica de que a política, nos moldes como hoje tem vindo a ser praticada, conduz a um afastamento dos cidadãos, que, por consequente desinteresse/desilusão, se divorciam de toda a sorte de envolvimento cívico-político, porque o entendem desnecessário, ineficaz, quando não contraproducente. Cabe, contudo, redarguir que a responsabilização por uma cidadania activa, ou não, parte antes de tudo de cada um de nós. Se a opção for mesmo a de se persistir na via da ignorância, de pouco valem novas ou velhas oportunidades.

Sempre o politicamente correcto

Pergunto-me quais seriam as reacções se uma qualquer empresa portuguesa colocasse num anúncio de emprego a condição de apenas se aceitarem jovens portugueses. Parece-me que os adjectivos mais utilizados seriam "xenófobos", "racistas", "inconstitucional".

Pergunto-me ainda - embora a resposta me pareça ainda mais óbvia - porque não há nenhuma reacção quando, dia após dia, existem inúmeros anúncios de emprego que referem "contratam-se jovens angolanos".

Não tenho nada, mas mesmo absolutamente nada, contra os jovens angolanos. Mas parece-me da mais elementar justiça que se não há trabalhos para jovens portugueses que também os não haja para angolanos. Ou será que o que é nosso é deles e o que é deles é deles?

Peço desculpa a mentes mais susceptíveis que se sintam atingidas por este post, mas no estado em que Portugal está não há mais lugar ao politicamente correcto!

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia

Todalas cousas eu vejo partir
do mund'em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo vos vem!
mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.

Pero que ome part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fe,
e parte-s'ome d'u gran [de] prol tem,
nom se pode parti-lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.

Todalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.

(Joam Airas de Santiago)


Os meus alegres, venturosos dias
Passaram, como raio, brevemente;
Movem-se os tristes mais pesadamente
Após das fugitivas alegrias.

Ah! falasas pretensões! vãs fantesias!
Que me podeis já dar que me contente?
Já de meu triste peito a chama ardente
O tempo reduziu a cinzas frias.

Nelas revolvo agora erros passados;
Que outro fruito não deu a mocidade,
A quem vergonha e dor minha alma deve.

Revolvo mais de toda a mais idade,
Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,
Pera que leve tudo o tempo leve.

(Luís de Camões)


Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

(Fernando Pessoa)


"A Palavra"

Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.

(Miguel Torga)


I wish I could remember that first day,
First hour, first moment of your meeting me.
If bright or dim the season, it might be
Summer or Winter for aught I can say;
So unrecorded did it slip away,
So blind was I to see and to foresee,
So dull to mark the budding of my tree
That would not blossom yet for many a May.
If only I could recollect it, such
A day of days! I let it come and go
As traceless as a thaw of bygone snow;
It seemed to mean so little, meant so much;
If only now I could recall that touch,
First touch of hand in hand - Did one but know!

(Christina Rossetti)


Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word almost doth tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument:
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.

(William Shakespeare)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Benfica embaixador de Portugal

Não podia deixar de escrever um pequeno post sobre o SLB continuar a ser um digno embaixador de Portugal na Liga Europa. Vamos em frente e com confiança!

Uma palavra à minha Querida Amiga Inês pelo post sobre futebol que escreveu que muito me surpreendeu (positivamente, claro...). Fico apenas à espera que no próximo Domingo, como benfiquista assumida e ferrenha que sou, possa continuar a festejar...

Porque este é o ano da águia!

Apenas uma palavra de dura crítica face aos tristes incidentes de ontem que se viveram na imediações do estádio Alvalade XXI.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Uma possível sugestão de leitura

Para os especificamente interessados na matéria e/ou para os que gostam pura e simplesmente de alargar o seu campo de conhecimentos, aqui fica apenas um excerto introdutório de uma obra de 2007 que me promete momentos sapientes de leitura:

"The political communication systems of mature representative democracies are constantly evolving, but there is a sense that in the last twenty years or so, many have undergone a fundamental change - a "paradigmatic shift" as some have called it [...]. In simple terms, the global process of modernization, variously described by social theorists [...], had impacted on each of the components of national political communication systems, unleashing in its wake a series of reactions and counter-reactions. These once stable national systems, which caracterized much of the twentieth century, are increasingly becoming ones that have been described variously as "turbulent, less predictable, less structured" [...]. The relationships between political advocates, media professionals and their audiences have been transformed, as institutions and actors have sought to adapt to the new realities of political communication; such adjustments have in turn had implications for the wellbeing of democracy."

(James Stanyer, Modern Political Communication).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um Dragão e um Leão em (temporário) declínio

Apesar de estar longe de ser uma aficionada por futebol, não posso deixar de registar, com alguma mágoa, a degradação da performance do FCP nos últimos tempos, uma equipa que, dado o seu reconhecido currículo, dispensa apresentações. Por seu turno, o Sporting, com um prestígio futebolístico de não somenos importância, tem soçobrado em desaires atrás de desaires. É certo que os grandes, por vezes, também fraquejam, mas tanto insucesso em tão pouco tempo custa a digerir.

Será que depois desta tempestade virá a tão reconfortante bonança?

terça-feira, 9 de março de 2010

José Eduardo Moniz na Comissão de Ética

Está a decorrer a audição do Dr. José Eduardo Moniz na Comissão de Ética na Assembleia da República.

Vale a pena ouvir.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Flagelo do «bullying»

Na semana passada, a atenção mediática esteve bastante focada no fenómeno do bullying, em resultado do caso de um adolescente que se lançou ao Tua em desespero de causa: sofria sistematicamente de agressões físicas e psicológicas na escola. Além do desenlace fatídico desta história, o que mais choca nesta e numa série de outras situações similares, que têm de ser conhecidas para poderem ser combatidas, é a enorme passividade e, por conseguinte, a permissividade com que actos tão graves e desestabilizantes têm ocorrido nas nossas escolas, sem que praticamente nada esteja a ser feito para os solucionar.

Segundo a edição do Público de 4 de Março, 13,5% dos jovens admitem ser vítimas de bullying, um indicador aterrador a que não se pode ficar indiferente. Se é certo que muitos dos agredidos acabam por não se queixar por vergonha e/ou por receio de represálias, há contudo sinais que devem de imediato alarmar os pais e toda a comunidade educativa, se estiverem devidamente atentos, tais como a tendência crescente das vítimas para o isolamento, o decréscimo drástico do seu desempenho escolar e o pavor em irem para a escola. Esconder os casos ou não (querer) actuar é uma atitude demissionária inqualificável.

Quando os jovens consomem cada vez mais filmes e séries com conteúdos violentos, grotescos e mesmo boçais; quando passam horas e horas em frente a videojogos cujo objectivo de base é "matar" o maior número possível de "adversários", inclusive idosos; quando não recebem nem compreendem as regras mínimas de educação e de responsabilidade cívica, não admira que a agressividade e a grosseria se tornem o seu padrão de conduta por excelência.

Urge tomar todas as medidas necessárias para que a escola, de espaço de saber e de cultura, não se deixe transformar numa arena de vândalos, dos fora-de-lei.

terça-feira, 2 de março de 2010

Força Madeira!





Numa altura especialmente difícil, é importante relembrar as variadas riquezas da Madeira! E quem vai lá não só não esquece como quer voltar!

Porque nesta altura há muita gente que não pode contribuir com dinheiro, é de salientar a iniciativa dos CTT onde, quem quiser e sem qualquer custo, pode enviar bens para a Madeira (bem como para instituições de solidariedade social de todo o país). Eu já enviei e posso adiantar que interiormente foi muito reconfortante! Força Madeira!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma desventura com a CP

Nos últimos meses, tornei-me cliente regular da CP por força das circunstâncias. Apesar de um ou outro ligeiro atraso nas viagens, o serviço prestado não me tem suscitado críticas. Andar de comboio, sempre o considerei, é prático, rápido, seguro e agradável. No entanto, no passado sábado, tive o infortúnio de experienciar a falta de profissionalismo da CP e a desconsideração para com os seus passageiros.

Devido ao mau tempo que fustigou o País desde o final da tarde de sexta-feira, o rio Tejo transbordou de forma impressionante, inundando por completo toda a zona da linha de caminho-de-ferro de Alhandra. Intempéries destas (aliás, previstas já desde o início da semana passada) não são nada com que a CP não esteja habituada a confrontar-se, pelo que todos nós, como passageiros em particular e como cidadãos em geral, nos convencemos de que, perante condições climatéricas tão adversas, a CP saberia actuar de modo resoluto e eficaz. Pois, desenganei-me e lamento desenganar-vos também. O que aconteceu foi que, após alguns momentos de espera em virtude de uma enorme inundação em Alhandra (na verdade, um autêntico mar!) e após termos ainda deslizado nos carris submersos de água durante uns metros, nos foi anunciado que era forçoso regressarmos à estação do Oriente, facto pelo qual a CP apresentava as suas desculpas. Aqui, supunha eu e todos os restantes passageiros, a CP informar-nos-ia da alternativa que propunha oferecer-nos (por exemplo, transporte via camioneta para a estação viável mais próxima), a fim de tentar minimizar tão infeliz contratempo. Julgo que isto seria o mínimo.

Chegados ao Oriente, nada nos foi comunicado (os revisores, nem vê-los...) e a maior parte dos passageiros decidiu abandonar o comboio. Convicta de que em breve receberíamos alguma informação, permaneci na carruagem, juntamente com os restantes "companheiros de viagem". Eis senão quando o comboio arranca em direcção a Santa Apolónia, sem que, friso, nos tenha sido transmitida qualquer mensagem. Absolutamente intolerável! Já em Santa Apolónia e, por iniciativa nossa (passageiros), abordámos o primeiro funcionário da CP que encontrámos e questionámo-lo sobre o que a CP pretendia fazer. A única informação de que dispunha, disse-nos o dito funcionário, era a de que não podiam prever quando a linha ficaria transitável e que, quem quisesse desistir da viagem, teria de se dirigir às bilheteiras para ser reembolsado. E então, não há alternativas?!, todos nos entre-interrogávamos, atónitos.

Como é óbvio, não se pede à CP que taumaturgicamente faça recuar o nível das águas. Exige-se, isso sim, porque já faz parte das suas competências, que preveja e aja em conformidade com a situação em causa. Como é possível a CP não accionar rapidamente um plano de emergência (ou será que não o tem?) que permita contrariar, de forma expedita e satisfatória para os passageiros, tal transtorno? Como é possível ouvir um elemento da Protecção Civil afirmar que as pessoas não deviam ter saído de casa, tendo em conta o alerta que havia sido lançado? Como é possível ver um responsável da CP a vociferar, rubicundo, com os funcionários ante dezenas de clientes?

Tudo isto pareceria anedótico caso não tivesse, de facto, ocorrido. Tudo isto ilustra um amadorismo lastimável por parte da CP ao nível da gestão e da comunicação de crise. É incompreensível e injustificável assistir a tamanha impreparação. Fica-nos a sensação de que uma cultura organizacional de laxismo e de incompetência se tem vindo a enraizar em força e tarda em ser combatida. E esta sensação é, no mínimo, desanimadora. Pergunto-me que imagem terá deixado o nosso País nos turistas que circulavam neste comboio.