Todalas cousas eu vejo partir
do mund'em como soíam seer,
e vej'as gentes partir de fazer
bem que soíam, tal tempo vos vem!
mais nom se pod'o coraçom partir
do meu amigo de mi querer bem.
Pero que ome part'o coraçom
das cousas que ama, per bõa fe,
e parte-s'ome d'u gran [de] prol tem,
nom se pode parti-lo coraçom
do meu amigo de mi querer bem.
Todalas cousas eu vejo mudar,
mudam-s'os tempos e muda-s'o al,
muda-s'a gente em fazer bem ou mal,
mudam-s'os ventos e tod'outra rem,
mais nom se pod'o coraçom mudar
do meu amigo de mi querer bem.
(Joam Airas de Santiago)
Os meus alegres, venturosos dias
Passaram, como raio, brevemente;
Movem-se os tristes mais pesadamente
Após das fugitivas alegrias.
Ah! falasas pretensões! vãs fantesias!
Que me podeis já dar que me contente?
Já de meu triste peito a chama ardente
O tempo reduziu a cinzas frias.
Nelas revolvo agora erros passados;
Que outro fruito não deu a mocidade,
A quem vergonha e dor minha alma deve.
Revolvo mais de toda a mais idade,
Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,
Pera que leve tudo o tempo leve.
(Luís de Camões)
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.
(Fernando Pessoa)
"A Palavra"
Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.
(Miguel Torga)
I wish I could remember that first day,
First hour, first moment of your meeting me.
If bright or dim the season, it might be
Summer or Winter for aught I can say;
So unrecorded did it slip away,
So blind was I to see and to foresee,
So dull to mark the budding of my tree
That would not blossom yet for many a May.
If only I could recollect it, such
A day of days! I let it come and go
As traceless as a thaw of bygone snow;
It seemed to mean so little, meant so much;
If only now I could recall that touch,
First touch of hand in hand - Did one but know!
(Christina Rossetti)
Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word almost doth tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument:
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.
(William Shakespeare)
domingo, 21 de março de 2010
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